Esvai-se a noite na cabeça, lento agitar de emoções febris
Martelar monocórdico das horas paradas no relógio vislumbrado
Passam-se anos, sonhos desfeitos de mil cansaços da rapariga
alegrias infantis, boreais, etéreas, quem diria...
Caíu rápida mas não foi breve, a noite
Sonhados olhos doces, olhos tristes de incontida dor
Campos de amendoeiras e alfarrobeiras a perder de vistas
Sombras de outros campos, trigais ao vento, Alentejo em flor
Cerraram-se os olhos, já escureceu no Cais
Uma gaivota soltou-se, tenta chegar aos beirais
Fundiu-se com a noite, lá vai ela, em sua louca viagem
Os néons baços de todas as grandes cidades - Paris, à noite
Contrastando com a luminosidade intensa de Alexandria
Que linda que é Lisboa ao meio dia. E que bom que é o cheiro a maresia
O porquê de Fragmentário
Um diário é um conjunto de apontamentos que se apontam dia a dia - desses não tenho, por isso não escrevo diários -, de soluços aos solavancos, fruto das horas mortas e dos momentos inadequados do não sentir. Por isso, “Fragmentário”. Onde o navio? Sem navio...
terça-feira, 13 de julho de 2010
quinta-feira, 25 de março de 2010
Novas Avenidas velhas
Procurei o teu cheiro nas Avenidas Novas, disseram-me que te tinhas mudado para lá. Mais luminosas, ficaram, por certo, as Avenidas Novas! Quem florirá agora quando se abrirem os jasmins do jardinzito frente ao escritório?
À Pinheiro Chagas, em tempos idos, acorriam outras flores...
Da esquina da Rua da Conceição até ao Limoeiro qual será a extensão? Ò sim, que da Rua Palmira até bem dentro do meu coração sei bem a distância que vai...
Flores de esperança, é necessário voltar a plantar, vem aí a Primavera. Consertem-se os vasos partidos, plantem-se novos jardins surrealistas com palmeiras raquiticas e laranjeiras abespinhadas, encham-se de cores monocórdicas os vasos nas varandas dos quintais.
E a música, baixinho, entoando aos meus ouvidos, alegóricos hinos, caricias de sol poente ao entardecer...
Sentirmos o cheiro intenso das hortênsias, ouvirmos o chilrear da passarada...
À Pinheiro Chagas, em tempos idos, acorriam outras flores...
Da esquina da Rua da Conceição até ao Limoeiro qual será a extensão? Ò sim, que da Rua Palmira até bem dentro do meu coração sei bem a distância que vai...
Flores de esperança, é necessário voltar a plantar, vem aí a Primavera. Consertem-se os vasos partidos, plantem-se novos jardins surrealistas com palmeiras raquiticas e laranjeiras abespinhadas, encham-se de cores monocórdicas os vasos nas varandas dos quintais.
E a música, baixinho, entoando aos meus ouvidos, alegóricos hinos, caricias de sol poente ao entardecer...
Sentirmos o cheiro intenso das hortênsias, ouvirmos o chilrear da passarada...
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Antecipando o Verão
Longas e frias as noites neste Inverno que nunca mais acaba e devia estar a acabar. Sonhos quentes acabados de sonhar; jogos eróticos por inventar; Sodoma e Gomorra!
A memória meio arreliada por desperta contra vontade. Longas cantatas à desgarrada com o Ti Cunha em intermináveis noites eltílicas no pino do Verão...
- Cala-te sino da igreja - dizia o Ti Cunha, quando o badalo martelava as cinco no sino. - Não vês que o galo ainda não cantou e são férias de Verão???;
Frias as peças do jogo de xadrez espalhadas em anárquico campo de batalha. Dois poeões sacrificados por troca do bispo branco. Engatilhado, porém, o ataque de cavalaria;
Assim vai, o tempo, esse mestre escultor, o tempo de Yourcenar!
"time to live, time to die" Jim Morrisson dixit.
Fechem as janelas das casas todas não vão os virus infecciosos dos perniciosos patarecos que por aí andam à espreita querer entrar...
Escrevinhar as ideias; preencher o branco do papel. No mais, ser eterno, conversar com deus.
A memória meio arreliada por desperta contra vontade. Longas cantatas à desgarrada com o Ti Cunha em intermináveis noites eltílicas no pino do Verão...
- Cala-te sino da igreja - dizia o Ti Cunha, quando o badalo martelava as cinco no sino. - Não vês que o galo ainda não cantou e são férias de Verão???;
Frias as peças do jogo de xadrez espalhadas em anárquico campo de batalha. Dois poeões sacrificados por troca do bispo branco. Engatilhado, porém, o ataque de cavalaria;
Assim vai, o tempo, esse mestre escultor, o tempo de Yourcenar!
"time to live, time to die" Jim Morrisson dixit.
Fechem as janelas das casas todas não vão os virus infecciosos dos perniciosos patarecos que por aí andam à espreita querer entrar...
Escrevinhar as ideias; preencher o branco do papel. No mais, ser eterno, conversar com deus.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
S. Gonçalo de Amarante
Numa escolha aleatória fui parar a Amarante, inicio de carreira nos tribunais. Aos pés o Porto, à cabeça o Marão. Subimos a Serra e demos com ela. S. Gonçalo, a Pousada. "Se fizermos um filho havemos de chamar-lhe Gonçalo em honra do santo" Não fizemos, não lhe chamámos.
Paraste o carro no parque vazio e dirigimo-nos à recepção. O granito trabalhado da fachada e o rendilhado de cal branca subindo pelas paredes; O vermelho das tijoleiras envernizadas nas arcadas e o ocre das telhas luzidias no telhado.
Reza a história que a Pousada foi, noutros tempos,uma ermida de uma antiga ordem religiosa. Chamaram-lhe de S. Gonçalo em honra ao Santo casamenteiro residente na cidade de Amarante. Hoje faz jus ao laicismo pois nem é Domingo e nem sinais do sino a chamar para a missa. Altivo o sino e bem falante. Em dias de nevoeiro, que bem os havia, o seu eco despenhava-se pela encosta e ia morrer no adro da Igreja.
Pobres dos sinos, já não chamam, e se chamassem, quem os ouviria? Até os pináculos da torre da capela coram de vergonha pois espetaram-lhes com um cata-vento em cima.
ò deus das intempéries, ò oráculos das fúrias do vento e inimigos do bom tempo, vinde sobre nós, soterrai-nos aqui para sempre!
Entrámos e a recepcionista, sorridente e cúmplice, depois das boas vindas foi mostrar-nos o quarto.
- Podem escolher, esta noite a Pousada fica por vossa conta.
Gostei tanto de ti nessa noite que te incentivei a reservar um quarto para as férias do Carnaval que estavam próximas. Assim fizeste.
Os cães não fizeram o milagre e o cordeiro foi, uma vez mais,sacrificado.
Paraste o carro no parque vazio e dirigimo-nos à recepção. O granito trabalhado da fachada e o rendilhado de cal branca subindo pelas paredes; O vermelho das tijoleiras envernizadas nas arcadas e o ocre das telhas luzidias no telhado.
Reza a história que a Pousada foi, noutros tempos,uma ermida de uma antiga ordem religiosa. Chamaram-lhe de S. Gonçalo em honra ao Santo casamenteiro residente na cidade de Amarante. Hoje faz jus ao laicismo pois nem é Domingo e nem sinais do sino a chamar para a missa. Altivo o sino e bem falante. Em dias de nevoeiro, que bem os havia, o seu eco despenhava-se pela encosta e ia morrer no adro da Igreja.
Pobres dos sinos, já não chamam, e se chamassem, quem os ouviria? Até os pináculos da torre da capela coram de vergonha pois espetaram-lhes com um cata-vento em cima.
ò deus das intempéries, ò oráculos das fúrias do vento e inimigos do bom tempo, vinde sobre nós, soterrai-nos aqui para sempre!
Entrámos e a recepcionista, sorridente e cúmplice, depois das boas vindas foi mostrar-nos o quarto.
- Podem escolher, esta noite a Pousada fica por vossa conta.
Gostei tanto de ti nessa noite que te incentivei a reservar um quarto para as férias do Carnaval que estavam próximas. Assim fizeste.
Os cães não fizeram o milagre e o cordeiro foi, uma vez mais,sacrificado.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Velha Cidade
“... Lembro-me. Ciclicamente lembro-me. Do lado de cá do tempo - voluntáriamente afastado e qual eremita asceta escondido neste refúgio secreto agora pintado em tons de castanho e amarelo velho ou não se tivesse já instalado o Outono como bem relevam os castanheiros e pinheirais - volto por vezes, quando a memória emocional me visita e obriga a reviver o filme de outra vida quando soltos andavam os cavalos da mente e lá estou eu nos mesmos lugares de outros tempos onde a ritmo de música sinfónica de afinada orquestra se sucediam actos primeiro de peças de teatro por encenar e representavam actores e actrizes a ritmo alucinante, o amor.
Reinvento-os como só com o passar do tempo e lá estou eu de novo naquela cidade branca, Lisboa, cidade em plena efervescência, personagens de ficção ou não, juventude prenhe de ideias de felicidade permanente, emoções jorrando na jactância de corações despedaçados, amante de ciúmes enlouquecida.
Lisboa cidade amada, Lisboa cidade velha, Lisboa cidade, qual mulher perdida em noite de temporal, à deriva. Cidade de fantasia inventada por romancistas e poetas decadentes, deserto árido à chegada, casa de mil recordações à partida, assim eras Lisboa,cidade bela, uma das mais belas do mundo onde tudo podia acontecer...”
Reinvento-os como só com o passar do tempo e lá estou eu de novo naquela cidade branca, Lisboa, cidade em plena efervescência, personagens de ficção ou não, juventude prenhe de ideias de felicidade permanente, emoções jorrando na jactância de corações despedaçados, amante de ciúmes enlouquecida.
Lisboa cidade amada, Lisboa cidade velha, Lisboa cidade, qual mulher perdida em noite de temporal, à deriva. Cidade de fantasia inventada por romancistas e poetas decadentes, deserto árido à chegada, casa de mil recordações à partida, assim eras Lisboa,cidade bela, uma das mais belas do mundo onde tudo podia acontecer...”
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Nostalgia
Nas cordilheiras da tristeza há sempre a esperança de um dia acordarmos frescos e leves pelo vislumbre do alegre chilrear da passarada ao alvorecer.
É certo que os morangos, bem como as cerejas do quintal da tia já estão vermelhos e prontos a comer. Apetitosos até, diria. Então se assim é, porque é que nos é proibido comê-los sem termos que os pedir à tia?
Fugir das convenções..., desviarmo-nos da rota que préviamente o Sr. do destino traçou para nós...
É a ansiedade, a pressa, que nos destroça toda a vida planeada!
Trocava a vida toda que já tive por cem dias de aventura! Mas quanta vida me resta e quanta aventura???
Tenho medo de ficar e até de partir já tenho. Fujir de mim próprio? E aportar onde?
O teu destino era partir, lembras-te? E o meu, qual é???
É certo que os morangos, bem como as cerejas do quintal da tia já estão vermelhos e prontos a comer. Apetitosos até, diria. Então se assim é, porque é que nos é proibido comê-los sem termos que os pedir à tia?
Fugir das convenções..., desviarmo-nos da rota que préviamente o Sr. do destino traçou para nós...
É a ansiedade, a pressa, que nos destroça toda a vida planeada!
Trocava a vida toda que já tive por cem dias de aventura! Mas quanta vida me resta e quanta aventura???
Tenho medo de ficar e até de partir já tenho. Fujir de mim próprio? E aportar onde?
O teu destino era partir, lembras-te? E o meu, qual é???
quarta-feira, 8 de julho de 2009
PORQUÊ EU
De estação em estação, de cais em cais, aporta um desconhecido em mim.
Sou quantos? Quantos em mim? Espanto-me pela clareza do meu raciocínio, pela clarividência da minha inteligência clarificadora dos insondáveis mistérios da psique, mas até quando? Viajantes, os neurónios acutilantes galopando na cabeça, quem vem lá?
Disseram-me que estás cá? Vieste de automóvel? Por que auo-estrada do destino?
Podemos vir a ser felizes? Já o fomos?O ponto de interrogação é parecido com o gancho de um guindaste?
E tu? Quem és tu?
Sou quantos? Quantos em mim? Espanto-me pela clareza do meu raciocínio, pela clarividência da minha inteligência clarificadora dos insondáveis mistérios da psique, mas até quando? Viajantes, os neurónios acutilantes galopando na cabeça, quem vem lá?
Disseram-me que estás cá? Vieste de automóvel? Por que auo-estrada do destino?
Podemos vir a ser felizes? Já o fomos?O ponto de interrogação é parecido com o gancho de um guindaste?
E tu? Quem és tu?
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